A Xiaomi conquistou o mercado global de smartphones com seu vasto ecossistema de produtos e, principalmente, dispositivos com um custo-benefício imbatível. Mas, para os entusiastas da tecnologia e desenvolvedores, a gigante chinesa revela um tesouro escondido: a profunda integração com o universo do software de código aberto do Android. Isso permite ir muito além da interface padrão MIUI, explorando um nível de personalização e modificação raramente visto em outras marcas.
Essa natureza aberta do Android possibilita a modificação profunda dos dispositivos, um cenário que remonta a mais de uma década e que, felizmente, a Xiaomi ainda abraça, apesar de algumas restrições recentes. Modelos icônicos como o Poco F1, as populares linhas Redmi Note e o extinto Xiaomi Mi A serviram como verdadeiras portas de entrada para quem deseja experimentar Custom ROMs ou, inclusive, aventurar-se em sistemas operacionais alternativos, desvinculando-se do ‘jardim’ da Google. Esse potencial vai muito além do que a maioria dos consumidores percebe.
Por Que a Xiaomi Atrai os Desenvolvedores e o Cenário de Customização?
Não é por acaso que a Xiaomi se tornou a queridinha da comunidade de desenvolvedores. Primeiramente, além do seu preço tradicionalmente acessível, a política da Xiaomi permitia historicamente o desbloqueio do bootloader – o gerenciador de inicialização essencial para instalar sistemas operacionais alternativos e, assim, modificar o software do aparelho. Embora essa política esteja se tornando mais restritiva, a base de dispositivos existentes ainda se beneficia dela.
Adicionalmente, a Xiaomi tem o hábito de liberar o kernel do Android para seus dispositivos, que contém componentes cruciais para a execução do sistema operacional. Essa prática é de suma importância para que a comunidade em fóruns especializados, como o renomado XDA Developers (xda-developers.com), consiga adaptar e otimizar todo tipo de ROMs personalizadas aos aparelhos Xiaomi.
Qualcomm vs. MediaTek: O Fator Decisivo na Customização
Contudo, há um fator crucial nessa equação: a fabricante de chips. Historicamente, os modelos com maior longevidade e suporte nesse cenário de modificações foram aqueles que abrigavam chips da fabricante americana Qualcomm, especialmente os da linha Snapdragon. Por um motivo semelhante ao da Xiaomi e o kernel, a Qualcomm oferece um suporte superior de drivers e documentação para a comunidade de desenvolvedores, em comparação com os chips MediaTek.
Além disso, o volume de vendas de cada celular também desempenha um papel vital. Vender milhões de unidades de um modelo específico cria, consequentemente, uma base de usuários enorme. Dessa massa, surge um número maior de desenvolvedores dedicados, expandindo as possibilidades para os usuários mais curiosos e avançados. É a combinação desses fatores – abertura da Xiaomi, suporte da Qualcomm e grande base de usuários – que criou um ecossistema sem igual para a personalização de smartphones Xiaomi.
Lendas da Comunidade: O Legado Duradouro do Poco F1 e Outros Modelos
Será que a era de ouro do Poco F1 já passou? Surpreendentemente, a resposta é um enfático “não”! Este telefone é um estudo de caso perfeito de longevidade na comunidade de Custom ROMs. Mesmo sete anos após seu lançamento, ele ainda recebe atualizações de ROMs para as versões mais recentes do Android, e há até mesmo rumores de que o novo Android 16 chegará em breve para o aparelho! O Poco F1, portanto, possui suporte oficial ao LineageOS (download.lineageos.org/devices/beryllium/builds) e já foi um dos favoritos para a extinta Pixel Experience, uma das ROMs mais populares.
Seu sucessor, o Poco F3, também goza de boa saúde graças à comunidade, apesar de ter chegado ao fim de sua vida útil oficial de atualizações pela Xiaomi em 2024. As linhas Redmi Note 7 e Redmi Note 8 igualmente contavam com uma boa variedade de alternativas à MIUI no passado, embora hoje tenham perdido boa parte do interesse dos desenvolvedores.
O Cenário Atual: Desafios e Mudanças na Customização Xiaomi
No entanto, o cenário de customização tem sofrido mudanças significativas, inclusive para a Xiaomi. Modelos mais recentes, como os Redmi Note 13 e Redmi Note 14, por exemplo, tiveram um desenvolvimento lento ou quase inexistente de ROMs personalizadas. Isso se deve, em grande parte, à predominância de chips MediaTek nesses dispositivos e, também, à menor popularidade ou necessidade de modificar o software em aparelhos mais novos. Dessa forma, se você está pensando em adquirir um novo celular Xiaomi com o intuito de customizá-lo, é essencial consultar o subfórum específico no XDA Developers para verificar o suporte da comunidade antes de fazer sua escolha.
Ainda assim, portais parceiros como o Xataka Android têm revisitado alternativas fora do ecossistema Android, onde os celulares Xiaomi mais antigos continuam a brilhar. É importante mencionar, porém, que esses sistemas alternativos são geralmente mais instáveis. Além disso, o foco da cena de customização tem se movido gradualmente para outras marcas, como o Google Pixel ou OnePlus, que oferecem um ambiente mais propício para o desenvolvimento de ROMs.

Explorando Além do Android: Sistemas Operacionais Alternativos na Xiaomi
Como já discutimos, abandonar a Google é uma possibilidade real com alguns smartphones Xiaomi. Após dar os primeiros passos para se tornar menos dependente da empresa de Mountain View, experimentar algumas dessas alternativas pode ser uma experiência enriquecedora para usuários avançados. Por exemplo, existe a promessa de ter um Linux de bolso em seu celular.
O UBports (ubports.com/blog/ubports-news-1/ubuntu-touch-ota-9-focal-release-3962) é o projeto que mantém vivo o Ubuntu Touch, uma distribuição Linux que executa aplicativos projetados para os chips ARM dos celulares Xiaomi. Embora o sistema operacional esteja oficialmente desativado pela Canonical para dispositivos móveis, a comunidade continua a atualizá-lo com novos recursos. Alguns celulares Xiaomi compatíveis e com bom suporte para o Ubuntu Touch incluem o Xiaomi Poco M2 Pro, o Xiaomi Poco X3 NFC, o Xiaomi Redmi Note 9 Pro e suas variantes (Pro Max e 9S), além do Xiaomi Redmi 9 e 9 Prime.

Outras alternativas fascinantes ao UBports incluem o Sailfish OS e o postmarketOS. O Sailfish OS, por exemplo, tinha versões comunitárias para alguns modelos Redmi Note no passado, embora hoje seja mais difícil encontrar um Xiaomi compatível e atualizado com o sistema da Jolla (commerce.jolla.com/products/jolla-community-phone), que agora foca em seu próprio hardware. Por outro lado, o postmarketOS se destaca com suporte “oficial” para o Poco F1, além de outros como o Xiaomi Mi Pad 5 Pro, Mi Note 2 e Redmi 2, todos recebendo atualizações. Esta é uma distribuição Linux mais pura, baseada no Alpine Linux, adaptada para hardware móvel e que visa a longevidade dos dispositivos.
Riscos e Cuidados Essenciais ao Modificar Seu Celular Xiaomi
No entanto, é crucial considerar que o processo de modificar um celular Xiaomi e instalar Custom ROMs ou sistemas operacionais alternativos não é para todos. Desbloquear o bootloader e instalar uma ROM personalizada envolve riscos significativos, incluindo a possibilidade de tornar seu telefone inutilizável (conhecido como “brick”) se os passos não forem seguidos com extremo cuidado e conhecimento técnico. É fundamental seguir tutoriais confiáveis e fazer backups.
Ademais, embora a garantia não seja uma preocupação para dispositivos Xiaomi mais antigos, ela será anulada em celulares relativamente novos que passarem por esse tipo de modificação. Outra consequência importante é a perda da certificação SafetyNet da Google ao instalar um Android alternativo ou uma Custom ROM sem as devidas modificações. Isso pode significar que a maioria dos aplicativos bancários, serviços de streaming e outros que dependem dessa certificação deixarão de funcionar ou funcionarão com limitações.
Além disso, ao lidar com sistemas mantidos pela comunidade, é compreensível encontrar alguns bugs, instabilidades ou recursos que não funcionam perfeitamente no caminho. Portanto, a decisão de customizar seu Xiaomi deve ser tomada com extrema cautela, pesquisa aprofundada e a compreensão dos riscos envolvidos. A comunidade XDA Developers é um excelente ponto de partida para obter informações e suporte antes de iniciar qualquer modificação.